O LUTO DO DIAGNÓSTICO

A Esclerose Múltipla é uma doença crônica e imprevisível, de evolução prolongada, que afeta negativamente a saúde e funcionalidade dos pacientes.

Não é difícil entender o motivo pelo qual a Esclerose Múltipla cria um estado de desequilíbrio no organismo do indivíduo diagnosticado, resultando em diversas mudanças na vida do paciente, levando-o a se deparar com limitações, frustrações e perdas.



Uma doença crônica traz consigo perdas sucessivas de independência e controle, gerando para o diagnosticado a sensação de ter sido roubado em algo que tinha direito. Essa pessoa passa por um processo doloroso, que envolve sofrimento, medo, revolta, raiva, culpa, depressão, isolamento, torpor, desinteresse pelas atividades costumeiras ou excesso de atividades (fuga), podendo, inclusive, apresentar sintomas físicos e psicológicos de estresse, fadiga e falta de ar.


Por isso, viver bem com uma doença crônica como a Esclerose Múltipla depende muito da forma como o paciente passa pelo luto!


O luto é um processo necessário e fundamental para preencher o vazio deixado pelo diagnóstico de uma doença crônica, através dele o paciente chega à aceitação, fazendo com que descubra, nele mesmo, forças antes desconhecidas.

Aceitar uma doença crônica faz com que repensemos nossas vidas e nossos valores, com que percebamos o que realmente importa e o que é supérfluo, nos dando equilíbrio para saber experimentar o impacto das emoções positivas e negativas que a vida nos proporciona.


O processo do luto (ou da aceitação) possui cinco estágios: negação, revolta, barganha (negociação), depressão e, finalmente, aceitação.

Estes "Cinco Estágios do Luto" foi um modelo proposto por Elisabeth Kübler-Ross, em seu livro "Sobre a Morte e o Morrer", publicado em 1969. Segundo esse modelo, os pacientes tendem a entrar em um estado de auto-depreciação e, por isso, necessitam se apoiar em alguns conceitos de conscientização de seu estado.


As pessoas não costumam passar por essas fases de maneira linear, ou seja, elas podem superar uma fase, mas retomar a ela (ir e vir); estacionar em uma delas, sem ter avanços por longo período; ou ainda suplantar todos os estágios rapidamente, até a aceitação. Não há regra.


Confira os Cinco Estágios do Luto:


PRIMEIRO ESTÁGIO: negação e isolamento


Quando um paciente recebe o diagnóstico, tenta se convencer que os resultados dos exames estão errados, ou que o médico o confundiu com outro paciente. Existem pacientes, inclusive, que se recusam a tomar os medicamentos, negando a própria doença.


A negação é um mecanismo de auto-defesa, o paciente, quando confrontado com a nova realidade - ter uma doença crônica -, nega a verdade que lhe foi dita. Esta é uma fase de choque inicial, o paciente evita falar sobre o assunto, chorar ou manifestar alguma forma de dor, simplesmente porque evita entrar em contato com a realidade.


Cada pessoa passar por essa fase de forma diferente, alguns nem mesmo vivenciam este estágio do luto. Contudo, são comuns os seguintes pensamentos e comportamentos:

  • "Não, eu não, não pode ser verdade!"

  • "Vai passar."

  • "Não tenho Esclerose Múltipla, nunca me senti tão bem!"

  • "Essa doença não é grave, não preciso me preocupar."

  • "Vou buscar uma segunda opinião, esse médico não sabe nada!"


SEGUNDO ESTÁGIO: a raiva


Após sair do primeiro estágio, frequentemente as pessoas sentem raiva. Quando não é mais possível negar, a negação é substituída por sentimentos de revolta e ressentimento.


Nesta fase o paciente começa a se conscientizar que foi diagnosticado com uma doença que estará presente para o resto de sua vida, e poderá sentir raiva do médico, por tê-lo diagnosticado, de pessoas saudáveis que reclamam de coisas banais, e até mesmo de familiares e amigos, que não conseguem compreender sua revolta.


Dependendo do tempo que o paciente permanece neste estágio do luto, poderá acabar se isolando, não recebendo o apoio necessário de seus familiares e amigos. É que, quando sentimos raiva, é normal descontá-la em pessoas próximas e qualquer palavra de conforto pode parecer falsa. Tolerância dos familiares e amigos neste estágio são essenciais.


Os pensamentos e comportamentos mais comuns são:

  • "Por que eu?"

  • "Isso não é justo."

  • "Por que fizeram isso comigo?"

  • O paciente perde a calma ao falar sobre o assunto.

  • Recusa-se a ouvir conselhos.


TERCEIRO ESTÁGIO: barganha


Após o período de raiva o paciente começa a procurar formas para que as coisas voltem a ser como antes. Esta negociação, normalmente, acontece dentro do indivíduo ou, às vezes, é voltada para a religiosidade.


O maior problema é que as promessas e acordos não funcionam. Talvez o paciente se sinta mais aliviado ao fazê-los, mas a verdade é que a doença ainda estará ali e o indivíduo poderá se sentir traído.


É comum, na fase de barganha, os pacientes pedirem uma segunda chance, alterando o estilo de vida para que o diagnóstico se altere.


QUARTO ESTÁGIO: depressão


A depressão surge quando o paciente, passando pelo estágio da barganha, toma consciência que a doença já não pode mais ser negada. Nesse momento o indivíduo passa por uma fase de introspecção, procurando o isolamento.


O paciente sente pena de si mesmo, começa a pensar que será acometido de forma violenta pela doença e nunca ficará em remissão. Só de pensar que terá que tomar medicamentos ou mudar os hábitos alimentares o faz querer ficar na cama o dia todo, sem contar que os próprios sintomas e eventuais sequelas da Esclerose Múltipla podem trazer desconforto e consequentemente tristeza.


Depressão é normal quando se está sob estresse, afinal de contas, receber o diagnóstico de uma doença que estará com você para o resto da vida não é fácil. O paciente, nesta fase, toma consciência que nunca mais será a mesma pessoa, que terá que desistir, ou modificar de sonhos e projetos, e pensa e se comporta assim:

  • "Não tenho capacidade para lidar com isso."

  • "Eu nunca mais serei o mesmo."

  • "As coisas nunca mais ficarão bem!"

  • Comporta-se de maneira autodestrutiva.

  • Afastar-se das pessoas.

O paciente deve evitar se isolar. A família e os amigos serão o alicerce do indivíduo neste estágio. Falar, participar de grupos informar-se e comunicar-se são a chave!


QUINTO ESTÁGIO: aceitação


Chegar nesse estágio do luto depende do histórico de experiências da pessoa e crença que ela tem sobre si mesma e sobre a situação. Além disso, aqueles que conversaram com médicos e outros profissionais de saúde sentem-se mais rapidamente confortáveis e com mais autoconfiança diante do diagnóstico.


A aceitação não tem a ver com baixar os braços perante os acontecimentos, ou passivamente continuar a levar a vida em frente como se nada de terrível tivesse acontecido. A aceitação deve ser compreendida como o encarar a realidade dos fatos, tal como eles acontecem e são impostos pela condição da vida humana. É igualmente importante ganhar a noção que desejar uma vida completamente estável, sem mudanças, sem desafios e experiências significativas, é a antítese da própria vida.


Só porque o paciente chegou nesse estágio, não significa que não poderá voltar a passar pelos estágios anteriores. Somos uma verdadeira montanha russa de sentimentos e é normal retomar emoções que já haviam sido superadas. O importante é ter consciência que é tudo passageiro, e que é possível sempre superar e aceitar o diagnóstico.



Não existe um tempo certo ou estimado para que o paciente permaneça em cada estágio, nem que os estágios ocorrerão nesta ordem... será diferente para cada um. O mais importante é saber que esses sentimentos são normais e não há porque sentir culpa ou vergonha.


Lembre-se sempre que, apesar de haver várias teorias que tentam explicar o porquê do desenvolvimento da Esclerose Múltipla, ninguém sabe o que realmente a causa e não há nada que você poderia ter feito para evitar o diagnóstico.


FONTES: Escola Psicologia

Artigo: Uma releitura da obra de Elisabeth Kübler-Ross

Kübler-Ross, Elisabeth. Sobre a Morte e o Morrer. São Paulo: Martins Fonte, 1996.



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